Por Leticia Holtz, Maria Clara Villela e Thais Bueno

18 de novembro de 2021. Tic Tac. 20 horas e 30 minutos. Tic tac. 21 de novembro de 2021. 

O quão longe você iria para conhecer um ídolo do futebol? Muitas loucuras nascem do amor por esse esporte, que conquista milhares de pessoas a cada ano. Erica Viana, de 29 anos de idade, que o diga. De última hora, resolveu ir assistir à final da Copa Libertadores Feminina do ano passado, após receber um print do story da Gaviões da Fiel, que organizava uma caravana de torcedores corinthianos para presenciar a partida. Sim, decidiu abandonar tudo que estava vivendo no momento para ver o Corinthians Feminino jogar no Estádio Gran Parque Central. Aonde? Simplesmente na cidade de Montevidéu, no Uruguai. Duas horinhas e meia de avião. De ônibus? Quarenta e duas horas até o estádio. Quase dois dias completos. 

    “A Gaviões postou, na quinta-feira, entre 20h30 e 21h, e estava juntando algumas amigas para ir comigo. Sexta-feira, pela manhã, fui na quadra buscar o papelzinho de todas, que valia como reserva no ônibus. O ônibus saiu às 3h00 e entre acidentes, trânsito, trocas de rota e paradas para banho e alimentação, demoramos quarenta e duas horas para chegar no estádio. Chegamos quando o jogo estava no intervalo”.

    No entanto, nem tudo eram flores. Um obstáculo estava em seu caminho: seu trabalho. Ela conta que avisou à chefe que não poderia ir trabalhar na segunda-feira, já que iria assistir à grande final e “estaria voltando do Uruguai“. Quantas pessoas podem falar isso para a chefe e se dar bem? Pouquíssimas. Mas Erica foi uma delas. Sua chefe achou normal, já que estava acostumada a ouvi-la falar sobre estar em todos os jogos possíveis do Corinthians Feminino. Quem não quer uma chefe dessas? 

    Havia, também, algo do qual a analista de chargeback necessitava: um teste PCR negativo no espaço de um dia e meio. Foi, então, ao Aeroporto de Guarulhos. Ansiedade. Calma. Ia dar tempo. Não ia dar tempo. Desespero. Até que um dos únicos resultados negativos desejados na vida de uma pessoa veio – 30 minutos antes de chegar na quadra da Gaviões, de onde sairia o ônibus. 

    No final, tudo deu certo e ela ainda voltou como campeã da Libertadores e com a camiseta de jogo de uma de suas ídolas: Adriana, autora de um dos gols daquela final. 

    De onde surgiu todo esse amor pelo time alvinegro? De família corinthiana, Erica sempre gostou de esportes, principalmente de futebol. Começou a acompanhar nas Olimpíadas de Atenas. Via a Seleção Brasileira em outros campeonatos. Depois, os jogos do Corinthians. Às vezes, esperava notícias pelas rádios, pois o pai escutava muitas AM e sempre passavam notícias dos jogos da Seleção. 

    Já conheceu diversas jogadoras, mas não conseguiu esconder seu nervoso ao encontrar a zagueira Erika, do Corinthians. Sua principal ídola. Mais uma vez, o Aeroporto de Guarulhos fazia parte de sua história – foi recepcionar as jogadoras brasileiras, que voltavam da eliminação para a França na Copa do Mundo de 2019. 

    “A Erika foi uma das últimas a sair. Fiquei uns 5 minutos parada, só olhando ela conversar com a torcida. A foto dela foi a única que não saiu direito, de tanto que tremia no dia. Só fui me acostumar e parar de tremer quando encontrava com ela para tirar foto uns 3 meses depois”.

    Presença fiel nos jogos do Corinthians Feminino, Erica, que carrega consigo o nome de sua ídola, diz que o contato e carinho das jogadoras com os fãs compensa todo o esforço feito para apoiar o time em qualquer lugar.

    “Cada abraço vale por todo o tempo ali, esperando elas saírem do campo e encontrarem com a torcida. A nossa torcida está, cada vez mais, em todos os lugares para acompanhar o time, onde quer que forem jogar”.

23 de março de 2022. 14 horas e 25 minutos no relógio. Mensagem no WhatsApp.

    “Alguma de vocês tá afim de ir amanhã à noite comigo na Centauro da Avenida Paulista num evento?” 

    Uma resposta negativa. Uma resposta positiva. E um “sim” era tudo que eu precisava. 

    24 de março, dia do evento, 08 horas da manhã no relógio. Não conseguia acreditar no que ia acontecer. Fiquei ansiosa o dia todo. Convidei minha irmã, de última hora. Magra, cabelo curto e castanho. Ela topou. Eu, minha amiga e minha irmã. Nós três, em um táxi, em direção à Avenida Paulista, por volta das 17/18 horas. Tive um pouco de medo – nem levei celular, já que estavam ocorrendo muitos assaltos na região. 

    Chegamos. Era a primeira vez que pisava naquela Centauro. Para mim, na verdade, era uma loucura estar saindo de casa no horário de pico para ir em um local longe de minha casa. Na realidade, só fui porque alguém foi comigo e estava um pouco mais acostumada com a Paulista – estudo ali, no 900, todos os dias da semana. 

    Lembro-me que, quando entramos, arregalamos os olhos. Tenho certeza que tivemos o mesmo pensamento: “Meu Deus. Que loja gigante”. Camisetas penduradas. Placas de preço para tudo quanto é lado. Parede enorme com vários tênis. Dois andares – o de baixo, com o palco. Acima dele, um telão enorme. Propagandas da Umbro, patrocinadora do evento, passando. Nunca havia visto uma Centauro tão grande. E então, parecia que eu estava no céu. Loja de esporte, para um fã de futebol, é o paraíso. E eu, com a minha camisa amarela do Corinthians, não poderia me sentir mais sortuda por estar ali. 

    18 horas e 20 minutos e nossos estômagos começaram a roncar. Dei o dinheiro na mão da minha amiga. Japonesa, cabelo preto e longo.

    — Toma. Compra lá alguma coisa pra gente comer.

    — O que?

    — Não sei, qualquer coisa. Tem um shopping logo aí na frente. 

    — Qualquer coisa? Tem certeza?

    — Qualquer coisa.

    E lá se foram ela e minha irmã, enquanto fiquei sentada na arquibancada guardando nossos lugares. Esperei por alguns minutos. Para ser honesta, esperava um lanche do McDonald’s. A essa altura, já podia sentir até o cheiro das batatinhas. Elas me decepcionaram. Voltaram com duas pipocas – uma salgada e outra doce. Fiquei quieta. O cheiro de pipoca estava bom. O gosto, nem tanto. 30 reais em duas pipocas médias, murchas e duras. Essa doeu no coração (e no bolso).

    19 horas e 10 minutos e o momento tão esperado: Gabriela Maria Zanotti Demoner (ou, para os mais íntimos, Gabi Zanotti, ou para os clubistas, como eu, a melhor meio-campista do país) e Mariana Spinelli desciam as escadas da arquibancada e se sentavam nos banquinhos do palco montado. Eu estava ali, frente a frente, com duas das minhas ídolas  – uma do jornalismo e uma do futebol. Arrepiei, juro. Valeu muito a pena. Um papo super descontraído, com muitas risadas e sessão de autógrafos no final. Tietei muito a Zanotti. E a Mariana também. 

    Já posso dizer que encontrei minha ídola do futebol feminino e, honestamente, se eu pudesse colocaria isso até no meu currículo. 

Copa do Mundo. Joanesburgo, África do Sul. 2010.

Para quem trabalha com o futebol, a paixão e a idolatria precisam ser duas coisas distintas. Ter a oportunidade de esbarrar com grandes ídolos, entrevistá-los e até tirar aquela fotinho de recordação é mais fácil, mas não menos especial. Para o comentarista do SporTV, Maurício Noriega, 55, a oportunidade de conhecer um de seus ídolos de infância veio através do trabalho – e da sorte – na Copa do Mundo de 2010. Afinal, como enfatizado por ele, “A Copa do Mundo é a Disneylândia do futebol”.

Copa do Mundo. Euforia mesclada com cansaço. Cobrir um evento não é simples. Uns minutos de descanso. Em um de seus raros momentos de lazer naquele dia, enquanto jantava com seu colega de trabalho Milton Leite, Noriega reparou que, na mesa ao lado, estava sentado ninguém mais ninguém menos do que seu grande ídolo: o inglês Kevin Keegan,  que teve passagens pelo Scunthorpe United, Liverpool, Southampton, Hamburgo, Blacktown City e Newcastle, clube que defendeu como jogador e treinador.

Tímido, o comentarista foi incentivado por seu colega a puxar conversa com o ex-jogador inglês e, ao questionar se era ele mesmo, obteve a confirmação: seu ídolo internacional realmente estava ali, ao seu lado. Keegan, surpreso ao ser reconhecido por um fã brasileiro, se despediu da produtora que o acompanhava e se juntou à mesa dos comentaristas, para delírio de ambos. Começou, ali, um bate-papo, regado a cerveja e boas risadas. Apesar do trabalho pesado, tudo vale a pena quando rola aquele encontro com um de seus ídolos e, nas próprias palavras do comentarista, “Tem que fazer uma fotinho, né? Afinal, ninguém é de ferro e isso [esbarrar nos ídolos] acontece muito”.

Mauricio Noriega e seu ídolo Kevin Keegan. Foto: Acervo pessoal de Noriega.

Noriega já chegou até a ser confundido como filho do Rei Pelé. Sim, isso mesmo que você leu! Essa situação inusitada ocorreu lá em 1967, quando a mãe do comentarista estava grávida. Ela havia ido buscar o marido, também jornalista e locutor esportivo, no aeroporto. Luiz Gonzaga Noriega era muito amigo de Pelé – que também estava prestes a se tornar pai – e estava resenhando com o jogador, ao lado de sua esposa. Foi então que começou a colecionar momentos, mesmo sem nem ter pisado na Terra. 

Chega uma senhorinha e começa a conversar com o Pelé, e ele atendia todo mundo – como faz até hoje –, daí ela olhou pra minha mãe, e sabia da notícia que o Pelé ia ser pai. Colocou a mão na barriga da minha mãe e falou assim: ‘Deus te abençoe. Deus abençoe o filho do Pelé’. Ela achou que ali era a mulher do Pelé”. Situação inusitada e cômica: uma de suas várias aventuras durante a vida. 

Esse foi apenas o primeiro de muitos encontros de Noriega com o Rei. Recordou com carinho da entrevista que fez com o ex-jogador na inauguração do Museu do Futebol, em 2008. Naquela oportunidade, Pelé veria, pela primeira vez, a camisa por ele usada na final da Copa de 1970 – doada para o museu por um colecionador. O jogador terminou a entrevista, inclusive, acariciando o vidro onde estava a camisa, com um brilho no olhar, jamais esquecido pelo comentarista. Ser marcante é uma característica de Pelé, que “por onde passa, a composição do ar muda. Ele tem uma aura diferente, pelo gênio que foi no esporte”.

Quando questionado sobre o sentimento de conhecer seus ídolos, aqueles por muitos considerados inalcançáveis, a resposta do comentarista é fora do normal. Apesar de sua famosa timidez, ele afirma que a sensação é difícil de explicar, mas, que, quando se trabalha com seus ídolos, “você percebe mais o lado humano, a pessoa deixa de ser seu ídolo (a) e se torna um companheiro de trabalho”. Para Noriega, é mais difícil para o ídolo entender o seu papel do que o fã. Para os fãs, meros mortais, que não têm contato direto com seus ídolos, a história é outra.

03 de abril de 2022. Tic tac. 11 horas em ponto. 

Acho que a gente tem uma visão que o atleta é muito diferente da gente, que eles são como deuses, então não parece real encontrá-los, mas é um momento mágico. Eu achei que fosse desmaiar de tanto que eu tremia”, conta Beatriz Kajihara, ao conhecer as jogadoras do Corinthians Feminino. 

    Nenhuma paixão se compara ao futebol. Só quem sente, quem vibra, quem chora, é quem consegue sentir o coração bater por onze. Maluco, né? Sentir o coração de onze estranhos onde só deveria caber um. Como uma caixa torácica é capaz de aguentar tanto? Ao mesmo tempo, é como se a paixão fosse tamanha, que um próprio coração pudesse habitar onze diferentes corpos. Sentir o próprio coração na boca, mesmo que sua vida não dependa daquilo, é uma paixão reservada a poucos. Aos apaixonados. Aos torcedores. Beatriz Kajihara, com seus dezenove anos de vida, e coração saltitante, logo descobriu que pertencia a essa parcela da população. 

    Foi então, às onze horas, em meio a onze jogadoras, ao sentir o cheiro de grama molhada e pipoca murcha, que Beatriz se sentiu em casa, mesmo tão longe do que chamava de lar. Jogo difícil. Clássico contra o São Paulo. Tudo pra dar muito certo. Tudo pra dar muito errado. E foi logo no começo, quando o primeiro gol foi marcado, que os mil torcedores presentes se multiplicaram. Mesmo que aquilo fosse um campeonato, no momento, o que menos importava eram os tão almejados três pontos. A paixão da menina, tão semelhante à dos outros corinthianos ali presentes, permitiu que ela se sentisse livre, em meio a pés doloridos e garganta fervente.  

    A paixão desvairada vem acompanhada de diversos atos que parecem malucos. Superstições, promessas, rezas. A estudante de direito, por exemplo, em todos os jogos de mata-mata, pendura suas camisas do Corinthians na sala de jantar. Na final do Campeonato Paulista Feminino de 2021, depois de uma virada inacreditável do time alvinegro – com gol de Adriana aos 46 do segundo tempo -, agarrou uma camisa com tanto afinco que acabou acertando um dente na parede. O dente foi lascado, mas o time foi campeão. Então, sim, valeu muito a pena.

    Assim como tantos corações podem bater em um só, uma pessoa pode ser amada sem que haja uma troca de mensagens. Na verdade, ela pode ser amada sem sequer saber que a outra existe. Apesar de um tanto inacreditável, isso não é nada incomum.

Marta e Millene Fernandes. Dois nomes capazes de fazer os olhos de Beatriz brilharem. É difícil descrever o tamanho do que a rainha do futebol representa para cada menina apaixonada por esse esporte. Enquanto Pelé, o rei, representa a magnitude da seleção brasileira masculina, Marta, com seu batom vermelho usado em cada jogo, representa o futebol feminino por um todo. Millene, inspirada pela mesma que inspira Beatriz, hoje também é símbolo de admiração para a garota. Tendo saído de casa para seguir sua paixão e, eventualmente, saído do Corinthians para aspirar uma carreira internacional, Millene deixou sua fiel admiradora “viúva”, segundo suas próprias palavras. 

Beatriz Kajihara com sua ídola Millene Fernandes. Foto: Acervo pessoal de Beatriz.

    Ídolos vêm. Idolos vão. Porém, o amor pelo futebol sempre permanece – intocável.

23 de maio. 17 horas e 54 minutos. Mensagem no WhatsApp. 

“Tive uma ideia de pauta. E se fizéssemos uma reportagem sobre ídolos do futebol?”.